Por que o inventário virou o “cartão de visitas” do fornecedor
Clientes listados no Brasil (pressionados pela CVM 193), compradores europeus (sujeitos a CSRD e CBAM) e bancos com metas de carteira pedem, no fim das contas, o mesmo documento: um inventário de emissões com metodologia reconhecida e memória de cálculo. Para a PME, produzi-lo uma vez por ano resolve a maior parte dos questionários recebidos.
Semanas 1–2: definir fronteiras e ano-base
- Fronteira organizacional: quais CNPJs e unidades entram no inventário (recomenda-se a abordagem de controle operacional para PMEs).
- Fronteira operacional: quais escopos serão calculados — na primeira versão, Escopos 1 e 2 completos e um Escopo 3 simplificado (transporte contratado e principais insumos).
- Ano-base: o último ano-calendário com dados completos de contas de energia e combustíveis.
Semanas 3–6: coletar os dados
A boa notícia: quase tudo já existe dentro da empresa.
| Fonte de emissão | Onde encontrar o dado |
|---|---|
| Diesel, gasolina, etanol (frota) | Notas fiscais de abastecimento, controle de frota |
| GLP e gás natural (caldeiras, empilhadeiras) | Notas fiscais, contratos de fornecimento |
| Eletricidade | Faturas da distribuidora (kWh mês a mês) |
| Processos (quando houver) | Registros de produção e consumo de insumos |
| Transporte contratado (Escopo 3) | CT-es, contratos logísticos, distâncias médias |
| Produção física | ERP ou controle de expedição |
Semanas 7–9: calcular
O cálculo básico é sempre atividade × fator de emissão:
- Escopo 1: litros ou m³ de cada combustível multiplicados pelos fatores de emissão correspondentes (as ferramentas públicas do GHG Protocol, incluindo as adaptações brasileiras, trazem esses fatores).
- Escopo 2: kWh consumidos multiplicados pelo fator médio anual do Sistema Interligado Nacional, publicado pelo governo federal.
- Escopo 3 (simplificado): toneladas transportadas × distância × fator modal para o transporte contratado; estimativas declaradas como tais para insumos relevantes.
Documente cada passo em uma memória de cálculo: planilha com dados de origem, fatores usados (com fonte e ano) e resultados por escopo. É a memória de cálculo — não o número final — que passa em due diligence.
Semanas 10–12: transformar em informação comercial
- Calcule a intensidade de emissões: tCO₂e por tonelada, saca, peça ou outra unidade que o cliente reconheça.
- Redija um informe de 2 a 4 páginas: metodologia, fronteiras, resultados por escopo, intensidade e plano de melhoria (mesmo que modesto: iluminação, manutenção de frota, contrato de energia incentivada).
- Defina a rotina anual de atualização, idealmente antes do ciclo de negociação com clientes.
Erros comuns a evitar
- Misturar unidades (litros com m³, MWh com kWh) sem conversão documentada.
- Usar fatores de emissão sem citar fonte e ano — invalida o dado perante verificadores.
- Prometer “neutralidade de carbono” sem base técnica; para exportadores, credibilidade vale mais do que slogans.
- Tratar o Escopo 3 como obrigação de precisão absoluta na primeira versão: estimativas transparentes e plano de refinamento são aceitos e esperados.
Aviso editorial
Conteúdo informativo e educacional. Metodologias e fatores de emissão são atualizados periodicamente; utilize sempre as versões vigentes publicadas nas fontes oficiais listadas abaixo.