De onde vêm os padrões do ISSB

O International Sustainability Standards Board (ISSB) foi criado pela IFRS Foundation — a mesma instituição responsável pelas normas contábeis IFRS usadas em mais de uma centena de jurisdições — com um objetivo declarado: substituir a “sopa de siglas” de frameworks voluntários por uma base global única de relato de sustentabilidade voltada a investidores. O anúncio ocorreu durante a COP26, em 2021, e os dois primeiros padrões, IFRS S1 e IFRS S2, foram publicados em junho de 2023.

A lógica é contábil, não publicitária: o relato de sustentabilidade sob ISSB não é um relatório institucional de boas intenções, e sim um conjunto de informações financeiramente relevantes, conectadas às demonstrações financeiras e sujeitas a asseguração.

IFRS S1: a arquitetura geral

O IFRS S1 estabelece os requisitos gerais para a divulgação de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade. Seus elementos centrais:

  • Materialidade financeira: divulga-se aquilo que pode razoavelmente afetar os fluxos de caixa, o acesso a financiamento ou o custo de capital da entidade.
  • Quatro pilares herdados da TCFD: governança, estratégia, gestão de riscos e métricas e metas.
  • Cadeia de valor no escopo: riscos e oportunidades relevantes incluem os que se originam nos fornecedores e clientes da entidade — é daqui que nasce a demanda de dados sobre PMEs.
  • Conectividade: as informações devem “conversar” com as demonstrações financeiras, publicadas no mesmo momento e com o mesmo período de referência.

IFRS S2: o detalhamento climático

O IFRS S2 aplica essa arquitetura ao clima e incorpora integralmente as recomendações da TCFD (Task Force on Climate-related Financial Disclosures). As exigências mais relevantes na prática:

  • Riscos físicos e de transição identificados e descritos, com horizonte de curto, médio e longo prazo.
  • Análise de resiliência da estratégia, com uso de cenários climáticos.
  • Planos de transição, quando a entidade os possui, com premissas e dependências.
  • Emissões de GEE dos Escopos 1, 2 e 3, medidas com referência ao GHG Protocol — incluindo, no Escopo 3, as emissões da cadeia de valor.
  • Métricas setoriais e informações sobre precificação interna de carbono e remuneração vinculada ao clima, quando aplicáveis.

Por que isso alcança empresas fora da bolsa

Três mecanismos transportam os padrões para além das companhias listadas:

  1. Escopo 3: a companhia obrigada precisa de dados de emissões dos fornecedores para compor o próprio relato.
  2. Análise de riscos da cadeia: rupturas de fornecimento causadas por eventos climáticos ou por não conformidade de fornecedores são risco reportável — o que leva as obrigadas a auditar e qualificar sua base de fornecedores.
  3. Convergência internacional: bancos, seguradoras e clientes estrangeiros usam a mesma taxonomia, de modo que o vocabulário do ISSB vira o idioma padrão de questionários e due diligences.

Para a empresa não listada, dominar esse vocabulário — materialidade, escopos de emissão, riscos físicos e de transição — deixou de ser tema de especialista e passou a ser alfabetização comercial básica em cadeias exportadoras.

Aviso editorial

Conteúdo informativo. Consulte os textos oficiais do ISSB e da CVM listados abaixo antes de decisões de conformidade.